Mato Grosso do Sul, 24 de junho de 2026
Campo Grande/MS: Carregando...

Portela leva ao sambódromo a historia do príncipe Custodio e reafirma a força afro no sul do Brasil

Enredo para 2026 resgata o batuque gaúcho, valoriza lideranca religiosa negra e rompe com estereótipos sobre a presença africana fora do eixo tradicional
Foto: Instagram: @oficialportela
Foto: Instagram: @oficialportela

A Portela, uma das mais tradicionais e respeitadas escolas de samba do Rio de Janeiro, prepara para o Carnaval de 2026 um desfile marcado pela forca historica, espiritual e cultural da presenca negra no sul do Brasil. O enredo escolhido coloca em evidencia a trajetoria de Custodio Joaquim de Almeida, conhecido como principe Custodio, lideranca religiosa que se tornou simbolo do batuque no Rio Grande do Sul e referencia de resistencia, organizacao e fe da populacao afro-brasileira na regiao.

O tema, intitulado O misterio do principe do Bara a oracao do negrinho e a ressurreicao de sua coroa sob o ceu aberto do Rio Grande, propoe um mergulho profundo nas raizes africanas formadas longe dos centros mais conhecidos da religiosidade de matriz africana. A narrativa rompe com a ideia de que a presenca negra se limita ao Nordeste ou ao Sudeste e revela um Rio Grande do Sul marcado por terreiros, rituais, memoria e protagonismo negro desde o seculo 19.

Nascido no Golfo da Guine, no litoral ocidental da Africa, no periodo em que o continente sofria intensamente com o trafico de pessoas escravizadas, Custodio chegou ao Brasil ainda jovem e construiu em Porto Alegre uma trajetoria que misturou espiritualidade, lideranca comunitaria e articulacao social. Ao adotar o nome Custodio Joaquim de Almeida, tornou-se uma figura central entre negros libertos, trabalhadores urbanos e comunidades religiosas que encontraram no batuque um caminho de protecao, identidade e pertencimento.

Em um contexto historico marcado por repressao, racismo e tentativas sistematicas de apagar a cultura africana, o principe Custodio assumiu papel de mediador entre o povo negro e setores da elite politica e economica da epoca. Sua atuacao ajudou a garantir a sobrevivencia de rituais, cantos, fundamentos e hierarquias religiosas, mesmo quando essas praticas precisavam ocorrer de forma discreta, nos limites da periferia urbana e sob constante vigilancia social.

O enredo da Portela aposta em uma abordagem clara e direta, mostrando que o batuque nao foi apenas uma expressao religiosa, mas tambem um instrumento de organizacao social e resistencia cultural. Em Porto Alegre, a fe de matriz africana se estruturou como ponto de apoio para uma populacao negra frequentemente invisibilizada por uma narrativa oficial que exaltava apenas a heranca europeia no sul do pais.

Ao levar esse tema para a Avenida, a Portela amplia a compreensao nacional sobre identidade, memoria e formacao social do Brasil. O desfile destaca que, proporcionalmente, o Rio Grande do Sul apresenta hoje uma presenca expressiva de praticantes de religioes de matriz africana, superando inclusive estados tradicionalmente associados a essa heranca. Esse dado reforca a importancia de revisitar a historia regional sob outro olhar, mais proximo da realidade vivida por quem construiu o cotidiano das cidades.

A construcao do desfile aposta em uma narrativa visual forte, com alas e alegorias que representam a travessia africana, a chegada ao sul, os terreiros escondidos, as coroas simbolicas do principe Custodio e a resistencia cotidiana do povo negro gaucho. A expectativa e de um conjunto plastico marcado por cores intensas, referencias espirituais e imagens que dialogam com o sagrado e o historico de forma acessivel ao grande publico.

O samba-enredo escolhido reforca essa proposta ao unir lirismo, memoria e religiosidade popular. Composicao de Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simoes, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena, a obra venceu uma disputa acirrada com dezenas de concorrentes e se destacou pela clareza da mensagem e pela emotividade. A interpretacao no desfile ficara por conta de Ze Paulo Sierra, que estreia como voz principal da escola, carregando uma historia pessoal ligada a Portela desde a infancia.

A apresentacao da escola esta marcada para a noite de domingo, 15 de fevereiro, no Grupo Especial do Rio de Janeiro. A Portela desfilara ao lado de outras grandes agremiacoes, em um Carnaval que promete disputas intensas e diversidade de temas. Para a azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira, o foco esta em emocionar, informar e reafirmar seu compromisso historico com a cultura negra e com o samba como instrumento de comunicacao popular.

Ao apostar em um enredo afro-gaucho, a Portela mostra que o Carnaval segue sendo um espaco legitimo de narracao historica e valorizacao de personagens que ficaram a margem dos registros oficiais. O principe Custodio, agora, ganha projecao nacional, atravessa fronteiras regionais e tem sua coroa simbolicamente erguida sob os refletores da Marques de Sapucai, como sinal de reconhecimento, respeito e memoria viva.

#Carnaval2026 #Portela #CulturaAfro #HistoriaNegra #SambaNoPe #BatuqueGaucho #ReligiosidadeAfro #IdentidadeBrasileira #CulturaPopular #RioDeJaneiro #Samba #MemoriaNegra

Suas preferências de cookies

Usamos cookies para otimizar nosso site e coletar estatísticas de uso.