Mato Grosso do Sul, 14 de julho de 2026
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PF conclui primeira etapa da investigação e indicia Careca do INSS, ex-presidente da autarquia e mais 46 suspeitos

Inquérito aponta esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões, movimentação de cerca de R$ 6,3 bilhões e envolvimento de ex-dirigentes do INSS, empresários e representantes de entidade investigada
Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”
Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”

A Polícia Federal deu um importante passo nas investigações sobre um dos maiores escândalos envolvendo benefícios previdenciários dos últimos anos ao concluir a primeira fase do inquérito da Operação Sem Desconto. O trabalho investigativo resultou no indiciamento de 48 pessoas suspeitas de participação em um amplo esquema de descontos ilegais aplicados em aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Entre os principais investigados estão o empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido nacionalmente como Careca do INSS, o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, além de ex-dirigentes da autarquia, empresários e representantes de entidades associativas que, segundo a investigação, teriam atuado na estrutura responsável pelos descontos considerados irregulares.

O relatório final da investigação foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela condução do processo na Corte. Como o procedimento tramita sob segredo de Justiça, o conteúdo integral do documento permanece restrito, embora parte das informações já tenha sido confirmada pelas autoridades responsáveis pela apuração.

A investigação concentra-se, neste momento, na atuação da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), entidade apontada como uma das organizações utilizadas para realizar cobranças mensais diretamente nos benefícios previdenciários de milhares de aposentados e pensionistas sem que houvesse autorização válida para essas operações.

De acordo com a apuração, milhões de beneficiários tiveram valores descontados mensalmente de seus pagamentos como se fossem filiados voluntariamente à entidade. No entanto, a investigação aponta que, em inúmeros casos, essas autorizações jamais foram concedidas pelos aposentados ou pensionistas.

As estimativas levantadas durante o trabalho policial indicam que aproximadamente R$ 6,3 bilhões podem ter sido movimentados entre 2019 e 2024 por meio desse modelo de descontos considerados ilegais. O montante transforma o caso em uma das maiores investigações sobre fraudes envolvendo benefícios previdenciários da história recente do país.

Além do Careca do INSS e de Alessandro Stefanutto, também foram indiciados o ex-procurador-geral do INSS Virgílio de Oliveira Filho e o ex-diretor de Benefícios da autarquia André Fidelis. Os três ocupavam cargos estratégicos dentro da estrutura administrativa do instituto durante parte do período investigado.

Segundo a Polícia Federal, todos são suspeitos de integrar uma organização criminosa estruturada para facilitar a permanência dos descontos indevidos e permitir que recursos provenientes dessas cobranças fossem distribuídos entre diferentes participantes do esquema.

Outro nome apontado na investigação é o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, que também foi formalmente indiciado. Conforme consta na investigação, ele permanece foragido da Justiça.

Os investigadores sustentam que havia uma organização articulada envolvendo pessoas físicas e jurídicas responsáveis por operacionalizar os descontos, movimentar recursos financeiros e ocultar a origem do dinheiro por meio de diferentes mecanismos financeiros.

O relatório policial descreve que o funcionamento da fraude dependia da inclusão irregular de aposentados e pensionistas como supostos associados de entidades representativas. Com isso, mensalidades eram automaticamente debitadas diretamente dos benefícios previdenciários, reduzindo os valores recebidos pelos segurados.

Em muitos casos, os aposentados somente percebiam os descontos após vários meses, quando verificavam os extratos de pagamento ou procuravam atendimento junto ao próprio INSS para esclarecer a redução nos valores depositados.

As investigações tiveram início ainda em 2023, quando órgãos de controle interno passaram a identificar indícios de irregularidades na autorização desses descontos. Inicialmente, as análises ocorreram na esfera administrativa. Posteriormente, diante dos elementos encontrados, o caso foi encaminhado para investigação criminal conduzida pela Polícia Federal.

Durante o aprofundamento das apurações, foram identificados diversos contratos considerados suspeitos, movimentações financeiras incompatíveis e uma estrutura organizada que teria permitido a continuidade das cobranças durante vários anos.

Segundo a Polícia Federal, Alessandro Stefanutto, Virgílio de Oliveira Filho e André Fidelis responderão pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Já Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, foi indiciado pelos crimes de lavagem de dinheiro e participação em corrupção passiva.

No caso de Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, os investigadores atribuíram os crimes de organização criminosa, corrupção ativa majorada e lavagem de dinheiro qualificada e praticada de forma reiterada.

Os investigadores também apuram o fluxo financeiro entre empresas, entidades e pessoas físicas que, segundo a investigação, teria servido para ocultar a origem dos recursos obtidos com os descontos considerados irregulares.

Outro ponto importante destacado pela Polícia Federal é que esta representa apenas a primeira etapa das investigações. Outros procedimentos seguem em andamento para analisar possíveis desdobramentos do esquema e identificar novos envolvidos.

As autoridades também continuam examinando documentos, registros bancários, contratos, comunicações eletrônicas e demais provas recolhidas durante a operação para ampliar o entendimento sobre o funcionamento completo da organização investigada.

Paralelamente, permanece em análise outro núcleo investigativo relacionado ao empresário Fábio Luis Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Esse procedimento, porém, não integra o relatório de indiciamentos encaminhado nesta fase ao Supremo Tribunal Federal e continua sendo apurado separadamente.

A defesa de Alessandro Stefanutto e de Antonio Carlos Camilo Antunes informou que somente irá se manifestar após ter acesso integral ao conteúdo da investigação. A Conafer também foi procurada, mas não apresentou posicionamento até o encerramento desta etapa da apuração.

Com a conclusão desse primeiro inquérito, a Operação Sem Desconto entra em uma nova fase, agora voltada para a análise do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal, que deverão avaliar os indiciamentos, examinar as provas produzidas e decidir sobre os próximos passos do processo criminal envolvendo um dos maiores esquemas de fraudes já investigados dentro do sistema previdenciário brasileiro.

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