O avanço das investigações sobre o suposto esquema de fraudes envolvendo a comercialização de livros paradidáticos para prefeituras de Mato Grosso do Sul trouxe novos detalhes sobre o destino dos recursos públicos movimentados durante os contratos. A apuração aponta que cerca de R$ 27 milhões passaram por um complexo fluxo financeiro que envolvia transferências bancárias, operações via Pix, saques em espécie e repasses para empresas e pessoas ligadas ao grupo investigado.
Conforme os elementos reunidos durante a investigação, o dinheiro começava a circular poucas horas depois de as prefeituras realizarem os pagamentos à Editora Avante, empresa apontada como responsável pelo fornecimento das obras paradidáticas aos municípios. Segundo a investigação, embora a empresa estivesse registrada oficialmente em nome de Rhayane Souza Fanaia, ela seria utilizada em benefício de antigos proprietários da Gráfica Alvorada, pertencente à família Jafar.
A análise financeira realizada durante a investigação permitiu reconstruir parte do caminho percorrido pelos recursos públicos após entrarem na conta da editora. Segundo a linha investigativa, os valores eram rapidamente pulverizados por meio de diversas operações financeiras destinadas a pessoas físicas, empresas relacionadas ao grupo e retiradas em dinheiro vivo.
Para os investigadores, a velocidade com que os recursos deixavam a conta da empresa chamou atenção e passou a ser considerada um dos principais elementos para compreender como funcionaria a suposta estrutura financeira montada para distribuir os valores recebidos pelos contratos firmados com diversas administrações municipais.
Um dos episódios destacados ocorreu em 2 de agosto de 2022, quando a Prefeitura de Miranda efetuou um pagamento superior a R$ 1 milhão à Editora Avante. Ainda no mesmo dia, parte desse recurso começou a ser redistribuída por meio de operações eletrônicas.
Segundo a investigação, Jessyca Duarte Burgatt recebeu R$ 52 mil da empresa e, logo em seguida, transferiu R$ 50 mil via Pix para Ed Carlo Britto Burgatt. Paralelamente, Ed Carlo também teria recebido diretamente da própria editora outras duas transferências que totalizaram R$ 50,5 mil.
A investigação aponta que esse padrão de movimentação se repetia em diferentes ocasiões, sempre com pagamentos realizados pouco tempo após o ingresso dos recursos provenientes das prefeituras.
O fluxo financeiro também teria alcançado integrantes da família Jafar. Conforme os documentos analisados durante a investigação, Olívia Paroschi Jafar recebeu transferências superiores a R$ 135 mil, enquanto a Gráfica CGR, empresa ligada a Felipe e Giovanni Paroschi Jafar, teria recebido aproximadamente R$ 146,7 mil.
Em outra movimentação considerada relevante pelos investigadores, Giovanni Paroschi Jafar teria recebido mais de R$ 61 mil após orientações relacionadas à distribuição dos valores disponíveis na conta da empresa.
Ainda conforme a investigação, mensagens analisadas indicariam que Rhayane Souza Fanaia, embora aparecesse oficialmente como proprietária da Editora Avante, não exerceria autonomia plena sobre a administração financeira da empresa.
Segundo a apuração, foram identificadas diversas conversas entre maio de 2022 e abril de 2023 nas quais integrantes da família Jafar teriam orientado diretamente como os recursos deveriam ser distribuídos após cada pagamento recebido das administrações municipais.
Outro exemplo citado na investigação envolve recursos provenientes da Prefeitura de Itaporã. Em outubro de 2022, o município realizou pagamento superior a R$ 733 mil à editora. Pouco depois da entrada desse valor, surgiram registros de orientações para novos repasses financeiros destinados a pessoas físicas e empresas apontadas como ligadas ao grupo investigado.
Entre os destinatários mencionados aparecem a própria Rhayane, o publicitário Heyder Bartz, por meio da empresa Superconteúdo, e Giovanni Paroschi Jafar.
A investigação também identificou a atuação do advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado como representante comercial da Editora Avante durante as negociações com diversas prefeituras.
Além de participar das tratativas relacionadas aos contratos, ele também aparece na investigação como responsável por sacar R$ 48 mil em espécie diretamente da conta da empresa, operação considerada relevante pelos investigadores para compreender a movimentação dos recursos.
Outro aspecto que ganhou destaque durante a investigação envolve o elevado volume de dinheiro retirado diretamente das contas da empresa.
Segundo o levantamento financeiro, apenas entre fevereiro e dezembro de 2022 foram realizados 23 saques em espécie que somaram aproximadamente R$ 1,066 milhão.
Grande parte dessas retiradas teria sido efetuada por Rhayane Souza Fanaia, segundo os registros bancários analisados durante a investigação.
Na avaliação dos investigadores, o uso frequente de dinheiro vivo pode indicar uma estratégia destinada a dificultar o rastreamento posterior dos recursos financeiros, reduzindo a identificação do destino final das quantias retiradas.
Entretanto, a investigação ressalta que essa interpretação faz parte da linha investigativa apresentada até o momento e ainda será submetida ao contraditório durante o andamento dos processos judiciais.
O conjunto de informações reunidas permitiu aos investigadores elaborar um organograma financeiro que demonstra o funcionamento do fluxo dos recursos.
Segundo a apuração, o modelo seguia um padrão considerado recorrente: as prefeituras efetuavam os pagamentos pelos contratos firmados com a Editora Avante; os valores ingressavam na conta da empresa; logo em seguida eram distribuídos por meio de Pix, transferências bancárias para investigados e empresas relacionadas ao grupo ou retirados diretamente em espécie.
Em vários episódios analisados, essa movimentação começava praticamente no mesmo dia em que os recursos públicos eram depositados, situação que passou a ser um dos principais focos da investigação.
As autoridades continuam aprofundando a análise das operações financeiras, contratos públicos, movimentações bancárias e comunicações entre os investigados para esclarecer completamente a destinação dos recursos e a eventual participação de cada envolvido no suposto esquema.
O material reunido durante a investigação deverá integrar os processos judiciais relacionados à Operação Gutenberg, que apura possíveis irregularidades na contratação de obras paradidáticas por municípios sul-mato-grossenses e a suposta utilização desses contratos para movimentação irregular de recursos públicos.
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