Mato Grosso do Sul, 23 de julho de 2026
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Violência letal recua no Brasil, mas feminicídios avançam e acendem alerta sobre segurança das mulheres

País registra menor índice de mortes violentas da série histórica, enquanto assassinatos por razões de gênero e mortes em ações policiais seguem em crescimento; Mato Grosso do Sul está entre os estados que tiveram aumento nos casos
Anuário Brasileiro de Segurança Pública foi divulgado nesta quinta
Anuário Brasileiro de Segurança Pública foi divulgado nesta quinta

O Brasil alcançou um marco importante na segurança pública ao registrar a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica nacional. Os números revelam uma redução expressiva dos homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, resultado que demonstra uma desaceleração da violência letal em diversas regiões do país. Apesar desse cenário considerado positivo, o crescimento dos feminicídios e das mortes provocadas durante intervenções policiais continua acendendo um sinal de alerta e mostra que o enfrentamento à criminalidade ainda apresenta desafios complexos.

Os dados mostram que a violência continua mudando de perfil em várias partes do Brasil. Enquanto alguns crimes apresentaram redução consistente ao longo do último ano, outros seguem aumentando e exigem respostas específicas das autoridades, principalmente aqueles relacionados à violência doméstica, à proteção das mulheres e às ações policiais em áreas urbanas e rurais.

Pela primeira vez desde que esse indicador passou a ser monitorado nacionalmente, a taxa de mortes violentas ficou abaixo da marca de 20 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. O índice caiu de 20,6 para 19,1, consolidando uma redução de 8,2% em relação ao levantamento anterior.

Na prática, isso representa milhares de vidas preservadas ao longo do ano. Em números absolutos, o país contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais, contra 44.127 registradas anteriormente. A diferença representa mais de 3,3 mil vidas poupadas em apenas um ano.

A evolução também é significativa quando comparada ao início da série histórica. Em 2012, o Brasil registrava taxa de 27,7 mortes violentas para cada grupo de 100 mil habitantes. Desde então, houve uma redução gradual, interrompida apenas em alguns períodos, até alcançar o menor patamar já registrado.

As mortes violentas intencionais englobam diversos tipos de crimes considerados de maior gravidade. Fazem parte desse indicador os homicídios dolosos, os feminicídios, os latrocínios, as lesões corporais seguidas de morte, além das mortes provocadas durante intervenções policiais e dos policiais mortos tanto em serviço quanto fora do horário de trabalho.

Grande parte da redução observada foi impulsionada pela queda dos homicídios dolosos, que continuam representando a maior parcela das mortes violentas registradas no país. Também contribuíram para esse resultado a diminuição dos latrocínios e das lesões corporais seguidas de morte, demonstrando uma retração em diferentes modalidades de crimes letais.

Mesmo assim, dois indicadores caminharam em sentido contrário.

As mortes decorrentes de intervenções policiais cresceram 5,4%, reforçando um debate permanente sobre protocolos operacionais, treinamento das forças de segurança, uso proporcional da força e estratégias voltadas à preservação da vida durante operações policiais.

Outro dado que preocupa especialistas é o crescimento contínuo dos feminicídios.

O levantamento revela que 44,4% das mulheres assassinadas no Brasil perderam a vida em crimes motivados exclusivamente pela condição de gênero, o maior percentual registrado desde que o feminicídio passou a integrar oficialmente o Código Penal Brasileiro.

O número demonstra que praticamente uma em cada duas mulheres vítimas de homicídio foi assassinada em um contexto de violência doméstica, relacionamento abusivo, perseguição ou discriminação de gênero.

Ao longo do período analisado, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em todo o país.

Na média, isso representa aproximadamente 4,3 mulheres assassinadas todos os dias por companheiros, ex-companheiros ou pessoas motivadas por questões relacionadas ao gênero feminino.

A taxa nacional chegou a 1,4 feminicídio para cada grupo de 100 mil mulheres, mantendo uma trajetória de crescimento que preocupa órgãos de segurança, Ministério Público, Poder Judiciário e entidades de proteção às mulheres.

Além dos casos consumados, outro indicador revela uma realidade ainda mais preocupante.

As tentativas de feminicídio aumentaram 5,9%, totalizando 4.189 registros.

Na prática, significa que para cada mulher assassinada outras quase três sobreviveram após sofrerem ataques extremamente violentos, muitos deles praticados dentro da própria residência ou por pessoas com quem mantinham relacionamento afetivo.

Esses números demonstram que milhares de mulheres continuam convivendo diariamente com situações de violência extrema e que muitas conseguem sobreviver apenas graças ao rápido atendimento médico, à intervenção de familiares ou à atuação das forças de segurança.

Os dados também evidenciam diferenças importantes entre as regiões brasileiras.

Centro-Oeste e Norte apresentam atualmente as maiores taxas de feminicídios consumados e tentados do país, revelando um cenário que exige investimentos permanentes em políticas públicas de proteção, fortalecimento da rede de atendimento às vítimas e ampliação das medidas preventivas.

Já Sudeste, Nordeste e Sul registraram índices menores, embora os casos continuem ocorrendo em números elevados.

Outro aspecto relevante do levantamento é que a redução da violência letal não ocorreu de forma homogênea entre os estados brasileiros.

Embora a maioria das unidades da federação tenha conseguido reduzir os índices, sete estados apresentaram crescimento das mortes violentas intencionais.

Entre eles está Mato Grosso do Sul, que registrou aumento de 4,9% em relação ao período anterior.

Também apresentaram crescimento Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal e Rio de Janeiro.

Por outro lado, estados como Amazonas, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Piauí, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Ceará, Alagoas, Amapá, Paraíba, São Paulo, Pará, Sergipe, Tocantins e Maranhão conseguiram reduzir seus indicadores de violência letal.

Especialistas avaliam que diversos fatores podem influenciar diretamente esses resultados.

Entre eles estão o fortalecimento das ações de inteligência policial, operações integradas entre forças estaduais e federais, combate às organizações criminosas, maior controle territorial, investimentos em tecnologia, políticas sociais e programas preventivos desenvolvidos nos estados.

Ao mesmo tempo, o crescimento dos feminicídios demonstra que a violência contra a mulher possui características próprias e exige estratégias específicas, diferentes das ações tradicionais de combate ao crime organizado e aos homicídios em geral.

Grande parte desses crimes acontece dentro do ambiente familiar, envolvendo relacionamentos marcados por agressões físicas, psicológicas, ameaças, perseguições e violência patrimonial, muitas vezes precedidos por sucessivos registros policiais e medidas protetivas.

Os números também reforçam a importância da ampliação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, do fortalecimento das Patrulhas Maria da Penha, da rapidez na concessão de medidas protetivas e da criação de políticas públicas voltadas ao acolhimento das vítimas antes que a violência evolua para casos fatais.

Embora o país comemore a redução histórica das mortes violentas, os indicadores deixam claro que o combate à criminalidade ainda depende de políticas permanentes, integração entre os órgãos de segurança, investimentos em prevenção e fortalecimento das ações voltadas à proteção da população mais vulnerável.

O novo cenário demonstra que salvar vidas passa não apenas pela redução dos homicídios, mas também pelo enfrentamento firme da violência doméstica, pela proteção das mulheres, pelo combate às organizações criminosas e pela construção de estratégias capazes de reduzir de forma equilibrada todos os tipos de violência que ainda atingem milhares de brasileiros todos os anos.

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