O encerramento do Plano Safra 2025/26 confirmou um cenário de maior dificuldade para o acesso ao crédito rural em Mato Grosso do Sul. O volume de financiamentos contratados pelos produtores sul-mato-grossenses apresentou forte retração ao longo do ciclo agrícola, refletindo um ambiente financeiro mais cauteloso, com maior seletividade das instituições financeiras e redução na oferta de recursos para diferentes modalidades de investimento.
Ao longo da safra, os produtores do Estado contrataram R$ 14,64 bilhões em operações de crédito rural, resultado que representa uma redução de 21,3% em comparação com o ciclo anterior. A diminuição reforça o momento de maior prudência no mercado financeiro e evidencia as dificuldades enfrentadas por agricultores e pecuaristas para garantir recursos destinados ao custeio da produção, investimentos em infraestrutura e comercialização.
O desempenho registrado no último mês da safra também confirmou essa desaceleração. Somente em junho foram contratados R$ 943,8 milhões, valor inferior tanto ao observado em maio quanto ao registrado no mesmo período do ano passado. Em relação ao mês anterior, a retração foi de 22,3%, enquanto na comparação anual a queda alcançou 40,1%, encerrando o ciclo com ritmo bastante abaixo do esperado.
Os números mostram que praticamente todas as principais linhas de financiamento sofreram redução. O crédito destinado ao custeio da produção, modalidade responsável pela maior parcela dos recursos disponibilizados ao setor agropecuário, caiu 22,5%, passando de R$ 12,4 bilhões para R$ 9,62 bilhões. Esse tipo de operação continua sendo fundamental para garantir a compra de sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis e demais insumos necessários para o desenvolvimento das lavouras e da pecuária.
Os financiamentos destinados aos investimentos também registraram retração. O volume contratado chegou a R$ 3,61 bilhões, resultado 13,8% inferior ao da safra anterior. Esses recursos costumam ser utilizados para aquisição de máquinas agrícolas, implementos, sistemas de irrigação, armazenagem, melhorias nas propriedades rurais e ampliação da capacidade produtiva.
A maior redução foi observada nas operações destinadas à comercialização da produção. Esse segmento encerrou a safra com apenas R$ 622,9 milhões em contratos, acumulando queda de 59,6% em relação ao ciclo anterior, demonstrando que muitos produtores optaram por reduzir o volume de financiamentos voltados à venda e estocagem da produção agrícola.
Em contrapartida, a única modalidade que apresentou crescimento foi a destinada à industrialização da produção rural. O segmento avançou 68,7%, alcançando R$ 782,5 milhões, movimento que demonstra maior interesse por operações ligadas ao processamento de matérias-primas e à agregação de valor aos produtos agropecuários.
Mesmo diante da retração geral, o custeio permaneceu como principal destino dos financiamentos no Estado, concentrando 65,7% de todos os recursos liberados durante a safra. A agricultura respondeu por 62% das operações realizadas, enquanto a pecuária ficou com 38% do total contratado.
Somente em junho, os financiamentos para custeio somaram R$ 624,6 milhões, equivalentes a aproximadamente dois terços de todo o crédito disponibilizado naquele mês. Desse total, R$ 488,7 milhões foram destinados às atividades agrícolas e R$ 455,1 milhões atenderam ao setor pecuário, ambos com desempenho inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
Entre os programas oficiais de financiamento, o Pronamp continuou sendo o principal instrumento utilizado pelos médios produtores rurais, acumulando R$ 2,88 bilhões em operações. Já o Pronaf, voltado aos agricultores familiares, respondeu por R$ 625,7 milhões em financiamentos durante todo o ciclo agrícola.
O levantamento também evidencia o papel predominante das instituições financeiras públicas na concessão do crédito rural em Mato Grosso do Sul. Elas responderam por 59,6% de todas as operações realizadas no Estado. As cooperativas de crédito ampliaram sua participação e passaram a representar cerca de 20% do total contratado, consolidando-se como alternativa importante para produtores que buscam maior flexibilidade nas negociações.
No cenário nacional, a retração também foi registrada. O Brasil encerrou o Plano Safra 2025/26 com R$ 345,6 bilhões contratados, resultado 9,9% inferior ao ciclo anterior. Mato Grosso do Sul respondeu por aproximadamente 4,2% desse volume nacional.
Com o início do Plano Safra 2026/27, o Governo Federal anunciou R$ 622,4 bilhões para financiar a produção agropecuária brasileira, aumento nominal de 1,7% em relação ao programa anterior. O novo pacote também trouxe redução nas taxas de juros para diversas linhas de financiamento, incluindo operações do Pronamp, custeio empresarial e programas destinados aos investimentos produtivos.
Apesar da ampliação dos recursos anunciados, especialistas do setor avaliam que o aumento nominal não acompanha a inflação acumulada no período, o que significa redução do poder de compra do crédito em termos reais. Além disso, cresce a participação dos chamados recursos livres das instituições financeiras, cujas taxas seguem as condições de mercado e normalmente apresentam custos mais elevados para os produtores.
A expectativa para o novo ciclo agrícola dependerá diretamente da disponibilidade de recursos subsidiados, da política de equalização dos juros adotada pelo Governo Federal e da situação financeira dos produtores rurais. Esses fatores serão decisivos para determinar o ritmo das contratações, a capacidade de investimento nas propriedades e o desempenho da produção agropecuária em Mato Grosso do Sul durante os próximos meses.
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